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CYMBALISTA, Renato. Territórios de cidade, territórios de morte urbanização e atitudes fúnebres na América Portuguesa. In: SEMINÁRIO DE HISTÓRIA DA CIDADE E DO URBANISMO, 8., 2004, Niterói. Anais... Niterói: ARQ.URB/UFF, 2004.
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Dados do autor na base InfoHab:
Número de Trabalhos: 3 (Nenhum com arquivo PDF disponível)
Citações: 8
Índice h: 2  
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Resumo

Este texto procura adentrar o território da América Portuguesa dos primeiros séculos de colonização (sécs XVI e XVII), a partir da investigação da dimensão territorial das relações entre vivos e mortos. Procura apontar para o fato de que a presença dos mortos contribuiu para a estruturação do território urbano, a partir de algumas modalidades de manejo da morte e dos mortos. Para fundamentar o argumento, o texto apóia-se fortemente em documentação primária e secundária, organizada em duas vertentes. Inicialmente, procura revelar a fundamental importância, para o sistema cultural cristão dos europeus do século XVI, da viabilização e conservação dos territórios de descanso dos mortos até a ressurreição no Juízo Final, e os desafios relacionados à gigantesca e repentina expansão do território ocidental no que diz respeito à viabilização de uma morte adequada para os cristãos no novo mundo. Nesse sentido, abre-se um viés específico para interpretar o povoamento do território brasileiro, para além de seu significado político ou econômico, enfocando as dimensões culturais e escatológicas envolvidas na construção desse território. Em um segundo momento, o texto traz uma documentação que revela que algumas mortes e algures mortos portavam qualidades especiais, surtindo assim efeitos específicos sobre a territorialidade das vilas e cidades da América Portuguesa: tratava-se de pessoas cujas trajetórias de vida lhes dava atributos de maior sacralidade: santos mais e menos reconhecidos pela Igreja, beatos, mártires. Esses mortos especiais apoiaram a própria inserção do território da colônia na história e temporalidade cristã, em um movimento de foco duplo. Por um lado, as novas terras eram local privilegiado para os martírios de jesuítas e religiosos que vinham à América dispostos a perder a vida em prol da expansão do território cristão. 0 local de sacrifício de um mártir revestia-se de um significado bento, sentando bases para a definitiva implantação da Igreja Católica. Por outro lado, parte dessa inserção do Brasil na história ocidental viabilizou-se a partir de um significativo tráfego de relíquias de santos católicos: ossos, dentes e crânios, objetos máximos de veneração que consagravam do ponto de vista simbólico o estatuto de urna nova cidade ou vila.
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