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SASSEN, Saskia Saskia. Globalização da economia e as cidades. Globalização da economia e as cidades. In São Paulo,2004. p. 42-48
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Dados do autor na base InfoHab:
Número de Trabalhos: 1 (Nenhum com arquivo PDF disponível)
Citações: 1
Índice h: 1  
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Resumo

Globalização e cidade são dois discursos que, sob modalidades distintas, têm uma realidade ampla em termos acadêmicos e de pesquisa, aparecendo em formas institucionalizadas e bastante autônomas. Esses dois discursos raramente eram articulados e, nos últimos dez ou quinze anos, o meu trabalho tem buscado entender certos aspectos muito específicos sobre a economia global e a partir dessas características chegar à cidade. Primeiramente, gostaria de identificar três características da economia global essenciais para se poder chegar ao tema da inserção específica da cidade, ressaltando o fato de que as cidades apresentam muitos aspectos não relacionados com a economia global. Devemos ter em mente que a cidade tem sua própria materialidade e que esta não pode ser reduzida simplesmente à questão da globalização. Em outras palavras, este é um discurso analítico sobre o papel da cidade na economia global, analítico mas também empiricamente especificado. As três características muito importantes na economia global para a análise que proponho são: 1. A economia global, na qual vivemos já há quinze anos, é uma economia que precisa ser produzida. Ela não é um simples dado, uma função das telecomunicações ou da inversão financeira internacional e, sim, um sistema complexo, bastante institucionalizado, que não deve ser considerado apenas como um dado ou como função do poder das multinacionais ou das telecomunicações. Portanto, é preciso compreendermos de que maneira esse sistema é produzido. Um elemento importante, na produção desse sistema econômico global, é a produção de toda uma série de serviços altamente especializados para as empresas. É aí que começa a primeira articulação com o discurso da cidade, porque a cidade (não exclusivamente) é ainda o lugar mais importante para a produção destes serviços. 2. Existe um alto grau de desregulação e privatização que caracteriza esse sistema. O que importa recuperar, com base na análise que faço, é o fato de a desregulação não ser simplesmente a ausência de regulação e, sim, um fenômeno de privatização dessas funções de regulação, que eram de competência do setor público (government regulation) e que agora tem sido assumidas pelo setor privado corporativo, o corporate world. Passam a ser o que em inglês se denomina governance, para a qual não há uma tradução nos idiomas latinos. Governance é distinto de governo. O que ocorre é uma transferência de funções de governo para o setor privado. No caso das funções de regulação de governo há um processo de transição destas funções (governance), cuja coordenação passa ao setor privado. Essa mudança é feita sob o manejo das grandes empresas e dos grandes mercados. Nesse contexto, há também um elemento que se articula com a cidade, uma vez que as funções de coordenação e as operações das grandes empresas e dos grandes mercados se dão em espaços urbanos, devido a uma série de questões, algumas por herança do passado e outras devido à especificidade desse tipo de produção. A privatização do setor público não significa apenas uma transferência no regime de propriedade do setor público para o setor privado. É também uma transferência da função de coordenação e de governance, que passam do governo de Brasília para São Paulo, por exemplo. No decorrer da palestra procurarei recuperar a especificidade de um certo tipo de cidade nessa situação. 3. Existem também as questões de digitalização e de telecomunicações que se destacam por apresentarem tecnologias que permitem grande dispersão e integração. Entretanto, não é somente mediante essas capacidades que se neutralizam todos os problemas da distância e do espaço. Até certo ponto eles podem ser neutralizados, mas para que essas funções se realizem é necessário que haja concentrações muito importantes de infra-estruturas, que também são encontradas nas cidades.
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