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Jacques, Paola Berenstein. Urbanismo à deriva : o pensamento crítico situacionista. In: SEMINÁRIO DA HISTÓRIA DA CIDADE E DO URBANISMO, 7., 2002, Salvador. Anais... Salvador: UFBA, 2002.
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Resumo

A IS (Internacional Situacionista)[i] - grupo de artistas, pensadores e ativistas situcionistas - lutava contra o espetáculo, a cultura espetacular e a espetacularização em geral, ou seja, contra a não-participação, a alienação e a passividade da sociedade. Eles acreditavam que o principal antídoto contra o espetáculo seria o seu oposto, a participação ativa dos indivíduos em todos os campos da vida social e principalmente naquele da cultura. O interesse dos situacionistas pelas questões urbanas foi consequência da importância dada por estes ao meio urbano como terreno de ação, de produção de novas formas de intervenção e de luta contra a monotonia da vida cotidiana moderna. Hoje, em um momento de crise da própria noção de cidade, que se torna visível principalmente através das idéias de não-cidade: seja por congelamento - cidade-museu e patrimonialização desenfreada - seja por difusão - cidade genérica e urbanização generalizada. Essas duas correntes do pensamento urbano contemporâneo - em voga na teoria mas principalmente na prática do urbanismo - apesar de aparentemente antagônicas, tendem a um resultado semelhante: a espetacularização das cidades. A irônica crítica situacionista parece ainda ser tão atual exatamente por ter visado, dentro do contexto dos anos 1950/60 na Europa, combater o que seria os primórdios dessa nova espetacularização urbana. A IS foi um dos primeiros grupos, no mesmo momento que o Team X[ii], a criticar de forma radical o movimento moderno em arquitetura e urbanismo, principalmente seus maiores símbolos: o funcionalismo doutrinário da Carta de Atenas[iii] e o excesso de racionalidade de seu maior defensor, Le Corbusier[iv]. A importância hoje do pensamento situacionista sobre a cidade estaria exatamente na força crítica que essas idéias ainda emanam. Como parte integrante importante e central de uma crítica situacionista bem mais vasta - artística, social, cultural e, sobretudo, política - está a problemática urbana e, principalmente, uma crítica à própria disciplina que surge da modernização das cidades: o urbanismo. As doutrinas, teorias e fundamentos básicos do urbanismo foram radicalmente questionados e criticados pelos situacionistas, que propuseram novas idéias e procedimentos como o UU (Urbanismo Unitário)[v], a psicogeografia[vi] ou a deriva[vii]. [i] Em 1957 em Cosio d`Arrosca, Guy Debord fundou a Internacional Situacionista (IS). A IS tinha adeptos em vários países, entre eles: Itália, França, Inglaterra, Alemanha, Bélgica, Holanda, Dinamarca e Argélia. Entre 1958 e 1969, doze números da revista IS foram publicados, e se nos primeiros seis números as questões tratavam basicamente da arte passando para uma preocupação mais centrada no urbanismo, estas se deslocaram naturalmente em seguida para as esferas propriamente políticas, e sobretudo revolucionárias, culminando na determinante e ativa participação situacionista nos eventos de Maio de 1968 em Paris. [ii] Grupo de jovens arquitetos que faziam parte do movimento moderno, dos CIAMs (Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna) e ficou conhecido como Team X (por serem os organizadores do CIAM X), eles tinham contatos com os situacionistas (principalmente ogrupo holandês e inglês) e também já estavam fazendo, de dentro dos CIAMs, uma crítica à antiga geração de arquitetos modernos e à Carta de Atenas. [iii] A Carta de Atenas se refere às discussões acerca da Cidade Funcional travadas durante o CIAM IV a bordo do Patris II em uma travessia Marselha-Atenas em 1933. A Carta só foi publicada 10 anos depois, durante a ocupação alemã de Paris, pelo próprio Le Corbusier . Outra versão dos debates é publicada logo após por J-L Sert nos Estados Unidos, o texto referente ao CIAM IV é muito semelhante mas o livro de Sert: Can our cities survive?, é ilustrado e mostra fotografias das cidades norte-americanas na década de 1940, que já antecipa de uma certa forma os princípios propostos pela Carta. Essas fotografias poderiam já significar um anúncio do esgotamento das idéias urbanas modernas e o início do fim do próprio movimento (dos CIAMs). [iv] O urbanismo proposto por Le Corbusier, exposto como uma doutrina na Carta de Atenas, vinha sendo massificadamente construído na Europa do pós-guerra, principalmente sob a forma de enormes conjuntos habitacionais modernistas. Para os letristas (futuros situacionistas) esses conjuntos monótonos e repetitivos, e sobretudo a separação de funções proposta por Le Corbusier, que virou ponto de doutrina na Carta, provocavam a passividade e a alienação da sociedade diante da monotonia da vida cotidiana moderna. Desde os primeiros números de Potlatch (informativo da Internacional Letrista) de 1954, Le Corbusier passa a ser um dos maiores alvos de críticasi irônicas, ele é citado como " le protestant modulor, le Corbusier-Sing-Sing ". O neo-modernismo comtemporâneo vai resgatar parte dos princípios urbanos corbusianos, principalmente a idéia de Tabula Rasa, reinterpretada por Rem Koolhaas. [v] Unitário por se contra a separação de funções moderna, o zoning proposto pela Carta de Atenas. Definição do UU do boletim da IS nº1, de 1958: urbanismo unitário - Teoria da utilização global das artes e técnicas que concorrem para a construção integral dum meio ambiente em ligação dinâmica com experiências de comportamento. [vi] Definição (IS nº1, 1958): psicogeografia - Estudo dos efeitos exactos do meio geográfico, conscientemente ordenado ou não, que age diretamente sobre o comportamento afetivo dos indivíduos [vii] Definição (IS nº1, 1958): deriva - Modo de comportamento experimental ligado às condições da sociedade urbana: técnica da passagem brusca através de ambientes variados. Emprega-se também, mais particularmente, para designar a duração dum exercício continuo desta experiência.
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